domingo, 13 de março de 2011

crossroads

Quanto mais quilômetros o odômetro indicava mais livre eu me sentia: correndo com o vento, imaterial, simples, esperanças mil. Maquiei meus incômodos, dei-lhes nomes de trabalhos inacabados e pensei em viver uma nova forma de sexualidade - que carreira seguirei? vou fazer mestrado? me formo esse ano? sou lésbica? O alívio também veio maquiado, de manhã tudo estava de volta ao natural. Meu incômodo tem nome próprio e sobrenome, tem olhos que eu vejo nos sonhos mais estranhos, tem gosto de culpa e de saudade, cheiro de mal-passado, sem ser passado a limpo. Agora eu já estava tão perto de casa, essa ilusão de cidade em que eu vivi pelos últimos doze anos, que me deu tudo sem oferecer nada, que me secou os pulmões e sem que eu percebesse, também o coração. Diriam que eu comecei a fumar, mas eu sei melhor que ninguém que não há caminho melhor pra se morrer um pouco mais a cada dia do que viver de olhos fechados em Brasília. É fácil, mas cheio de misunderstandings como os Beatles disseram. Senti saudade do Rio, do samba, do domingo de sol na praia. Simples. Descobri que no fundo sou tradicional demais, nas linhas e nas curvas. Trouxe de volta na bagagem mais uma revolução solar, um bocado de gente no coração e uma mochila. Maquiei meus incômodos. Não maquiei meu rosto, nem meus cabelos nem nada. Sem os disfarces era difícil saber quem ou o que eu era. Eu sempre pude ser qualquer coisa, mas nunca tive a intenção de ser uma coisa qualquer.

2 comentários:

  1. se forma esse ano? eu também. gostei do texto, parece que tem tanta entrelinha. =) q vc foi fazer no rio, jujuba?

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