segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

meu exílio em L.C.

Qualquer homem fica interessante à meia luz, ao som de um jazz, mas só ele era tão excitante ao som de qualquer música. As mãos para o piano e para mim, de unhas bem feitas, cabelos ralos e desgrenhados, os olhos castanhos com cílios maiores que os meus - eu competia por tudo mesmo! O tal .................. era um sujeito interessante. Hmmmm, interessante? É, interessante. Algo na sua expressão facial me encantava, o formato do nariz combinando com a boca, a orelha desenhada, as pintas no pescoço, a cicatriz no braço. Com modos ingleses, frio como um inverno europeu, tradicional como a arquitetura barroca, mas algo ali, eu sabia no fundo, era muito mais contemporâneo do que ele podia imaginar. Eu não disse nada entretanto, sendo a primeira e única vez em que me calei em sua presença.
Passamos mais uma noite conversando aleatoriedades musicais, ele era cheio de teorias, seus sentimentos eram como música escrita nos pentagramas. E eu era música cifrada, tirada de ouvido. Eu era mais Rolling Stones e ele muito Beatles. Hey baby, don't let me be misunderstood. Mas eu sempre dava um jeito de ser mal entendida. É o que eu faço de melhor, faz parte do meu show, meu amor.
Ele me mostrou os livros na sua escrivaninha improvisada, eu olhei com a mesma atenção de sempre. Ele me deixou sentar na sua cama enquanto eu ficava olhando para ele, eu com a mesma cara de sempre, me perguntando bem lá no fundo pra que ele não ouvisse como é que alguém podia ser tão rotineiro e tão excitante ao mesmo tempo. Eu não entendia. Quase dois anos se passaram desde esse dia, em que eu quis ver bem mais de perto como é que se fazia isso que ele fazia tão bem, eu não conseguia entender, eu tinha só 18 anos.
Não consegui extrair mais uma palavra sobre L., me perguntei o que eu tinha feito com esses quase três anos de memória. Simples: eu tinha abrido um blog.

p.s.: you had me at the rolling stones.

Depois dos 20 a gente começa com umas manias de transformar qualquer amor do passado em poesia.

2 comentários:

  1. que belo escrito, palavras, frases, pensamentos profundos ;)

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  2. Mas é muito bom transformar amores - passados ou atuais - em poesia!

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