quarta-feira, 21 de julho de 2010

reticencias

ela nasceu entre as tuas palavras e teus silêncios, entre os seus olhares perdidos no horizonte, as suas mãos de dedos compridos e palmas macias, o seu nariz perfeitamente posicionado no rosto, os olhos grandes por trás dos óculos e os sonhos que nunca compartilhou comigo: por toda a displicência inerente ao meu ser, pela minha frivolidade e minha explosão de energia momentânea. eu devo ter sido tua estrela cadente, não me deixei acreditar, apaguei.
ela então nasceu entre os sorrisos mais francos, livres e despreocupados, no peso da voz grossa. lembro das tuas orelhas de lobo preso e uma pintinha que se fazia passar por brinco, teus dentes alinhados, as unhas bem feitas - detalhes mínimos que me deixavam encantada e em silêncio. lembro das histórias que me contava, de quando a barba encostava o meu rosto nos cumprimentos, nos abraços mais seguros que já recebi.
cultivei-a entre as primeiras tentativas de palavras, timidamente. as primeiras metáforas, as primeiras tentativas de poemas, todas pra você. o receio me preservou de mim, os sonhos me atormentavam dia após dia com o teu rosto e os beijos que nunca tinha provado. lembro da primeira vez que tua pele tocou a minha.
deixei-a crescer devagarinho dentro de mim: minha poesia crescia exponencialmente enquanto não percebia que cedo ou tarde o mesmo oxigênio que me abastecia me colocaria em combustão para que eu virasse cinzas. minhas palavras já não se conectavam mais, estavam solitárias como eu - cronicamente solitárias, amargas, detestáveis. continuei a escrever pra que eu vivesse da lembrança dos meus erros: errei em não ser bonita ou inteligente o bastante, errei em ser eu, errei por ser consciente demais. mas continuei a escrever dia após dia, contando os dias sem sentido algum, sabendo que estava condenada a ser isso e nada mais.
ainda escrevia, ainda tentei dar vida a minha poesia. tua companhia constante me veio na primavera, na primeira chuva de setembro. eu sabia que inevitavelmente eu secaria e que nesse dia eu definharia, com ou sem você. ainda assim alimentei minhas últimas palavras pela satisfação de ver teus dentes alinhados, teus olhos com cílios grandes, as sobrancelhas grossas e as pequenas cicatrizes que revelavam teu passado. dei vida aos meus últimos traços pela satisfação de teus abraços e sorrisos que me eram tão caros, pela satisfação de te ver dormir serenamente ao meu lado. fingi que não me importava porque me apegar demais a qualquer lembrança me seria outra vez fatal. pela terceira vez desejariam minha morte.
cultivei ainda alguns versos desagradáveis, os textos cada vez menores, os desenhos cada vez mais pobres, eu cada vez mais alta. 10, 15, 20, 25. 30 mg. "não sei ser feliz", disse a outra. eu sabia que compartilhava de seu anseio pela melancolia crônica, pela falta de desejos para que nos poupássemos das frustrações. nos chamariam de covarde, eu diria que somos emofílicas. e ainda diria que temos o dom de estragar todos os sentimentos que tocamos.
a mulher me viu chorando, sentiu pena da condição humana em mim porque sabia que não poderia me amar, sabia que não haveria nada da pele para fora que me pudesse curar, era tudo questão de decoração interior. velou meu sono enquanto rezava buscando algum remédio que me salvasse de mim mesma, sabendo que nem a fluoxetina me tiraria do coma em que me encontrava. uma morta-viva de olhos de peixe e cabelos desgrenhados sempre, não importava quanto cuidado a ele dedicassem. senti minha poesia morrer quando vi você ficar pra trás no ponto de ônibus e pela primeira vez pensei que talvez todos os meus versos tenham sido pra você.

tudo em vão, que é só o que eu sei ser: vazia.

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