terça-feira, 6 de julho de 2010

cartas de despedidas - e despejos

Lembro do bar, da nossa primeira noite juntos pelo excesso do que fazer e a falta de vontade de fazer. Lembro que ainda era capaz de nadar mesmo com o peso que me puxava para o fundo, mas lembro que era porque eu deixava a correnteza me levar. Lembro de todos os trabalhos que nao serviam pra nada, do desperdício de tempo que a gente chamava de graduação e da desesperança que nos unia em algo que por ilusão apelidamos de amizade.
Lembro com tristeza profunda mas não com menos orgulho de tudo que já vivi. Me vem à cabeça o cheiro do cigarro dele, o toque de setembro, os cabelos longos e todo o resto de mim que tinha deixado pra trás quando resolvi deixá-los pra trás. Me vem à cabeça as risadas mais superficiais que já compartilhei, meus talentos não-usados, minhas fugas noturnas, minhas crises de ausência. As noites vazias, sem entender porque as companhias não eram mais sentidas.
Lembro das camas, dos motivos e das viagens. Lembro de um abraço recebido no meio do corredor da unversidade, ele tinha o cabelo manchado e a risada mais doce que eu já tinha visto. Estar com ele era sentir a brisa bagunçar os cabelos numa tarde livre qualquer. Lembro das tentativas de se morrer, lembro das ambulancias, lembro dos hospitais e dos carinhos recebidos numa roda de samba. Lembro do primeiro avião e da rodoviária, lembro da luz vermelha que já se apagou sem motivo algum: a gente sabe que tudo termina, mas que as vezes nao é justo.
Sei bem da sensação de estar sozinha, lembro dos 6 meses que vivi em coma: vazios, sonolentos, helplessness. Lembro da vez que você me fez chorar no estacionamento não pelo dito, mas pela minha ilusão de que você seria sensato. Lembro das férias de verão, do calor infernal, do prozac no café da manhã, da recepção que te fiz com os olhos vermelhos de saudade. Lembro do teu desgosto e das mentiras que ele dissera que você não devia me contar. Esse foi meu segundo grande desgosto. Lembro da maneira como tentei reunir os dois.
Lembro da letra de música que dizia que um grande amigo jamais deixaria o outro na estrada, sem saber que pegar um ônibus era o de menos, o pior mesmo era que eu que jamais te dei as costas, ficaria no acostamento a espera de um conserto.
Lembro do álcool, lembro das festas, lembro das curas. A certeza era amarga, a paz era necessária e eu só percebia o quanto as referências só me fariam mais perdida. Ele sorriu pra mim: se tu não puder ir até a estrada, eu trago a estrada até você. Eu sorri pela primeira vez em dias: Benvinda de volta.

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