quinta-feira, 17 de junho de 2010

sombra e luz

era tarde da noite, a música amena emoldurava o momento, ela jogada na cama após uma surra de sentimentos, afetos e desafetos. Ela tinha uma mente brilhante, o que evidenciava ainda mais as sombras na sua pessoa pequena, solo, precoce. A leveza da juventude ia ficando pra trás e ela se via pesada: no mundo ideal uma pluma e uma bigorna atingiriam o solo ao mesmo tempo após a queda livre. o mundo não era ideal. As primeiras rugas apareciam no canto dos lábios, os olhos ficavam cada vez mais fundos, as olheiras mais roxas e as maquiagens já não eram capazes de camuflar sua falta de sono. Esteve observando sua existência do lado de fora do próprio corpo por meses, sem prazer algum de ser e de estar, frigidez emocional e apatia. Ela derramou lágrimas em luto à auto assassínio que cometia diariamente ao sentir o impacto de retornar ao próprio corpo.
O sussurro do homem lhe causava um calafrio estranho, o aroma de café fresco e o cheiro de inverno, seu cachecol cinza chumbo tão pesado quanto a sua sobriedade. Ela assumiu uma dúzia de verdades universais, sabia que não era uma mulher interessante e que também não era uma garota interessante, era bonitinha mas ordinária, leu nos dedos quietos do homem. Ela se calou, ele a desejou com intensidade. Ela não era mais doce nem amável, lembrou um velho amigo. Pela primeira vez alguém a desejou em silêncio, provando que seu rosto era bem mais brilhante que sua mente. Ela caiu em prostração, isso era o sinal dos tempos: o brilho da sua mente estaria se esvaindo para lugar nenhum?
Ela permaneceu deitada na cama com suas melhores roupas, se perguntou o que faria se ele pudesse ver o lado mais escuro dela. Ela sabia que ele viraria as costas e apagaria alguma última vela antes de sair, o que não importava a ela - o escuro sempre foi o lugar dos sentidos...

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