sexta-feira, 4 de junho de 2010

Para aquele que não quiser ler

Brasília, 4 de junho de 2010.

Caro leitor,
antes de tudo gostaria de lhe condenar pela prepotência da tua razão que se diz esclarecida, pela tua petulância de desconstruir minhas palavras no intuito de hermeneutizar minha essência: não há nada de ciência em ser humano, só há sentir e sentido não nas linhas ou entrelinhas, mas no que está por trás do papel - diga-se de passagem, eu. A psicologia não é a resposta e nem eu sou a pergunta, percebo que a psicologia é a ferramenta e que a maioria de nós dois não tem nenhum preparo para pegar nessa enxada - e o diploma não faz do engenheiro um bom mestre de obras. Os números vão ilustrar, mas só as palavras vão fazer de tudo isso arte e da ciência, tecnologia. (Insira aqui tua risada ou teu meio sorriso de pseudocientista convencido que um dia o ser do humano será passível do método científico tal qual o universo).
Sem tomar meus remédios tudo me incomoda: o sol que me pinta a cara pela manhã na cama, os gritos de discussão pela madrugada na rua, o frio da rodoviária depois das 10 da noite, o carro amassado no estacionamento e principalmente a face apática dos que se escondem em laboratórios de 8 às 8 e que com certeza condenam os que se escondem em escritórios de 8 às 8 e os que se escondem em ateliers de 8 as 8. Tudo me incomoda e eu já não me envergonho do dom do paladar, quem tem lingua quer sentir o sabor doce, mas inveitavelmente vai sentir o amargo. Não quero viver de língua queimada, não quero perder o sentido do sabor e do saber.
O grande sábio recém-formado em psicologia me recomendou auto-negligência como remédio para o meu sentir imaturo e patológico, eu cuspiria todas as minhas pílulas na sua cara e carimbaria na sua consciência pesada minha carta de despedida e o convite para o meu funeral e de todos aqueles que ele certamente já havia matado silenciosamente em seu passado, sem melhor e nem pior de si, o que lhe restava era a maturidade que ele me vendia como o produto mais requisitado da sociedade pós-moderna. BULLSHIT. Ele cantarolou a minha canção em forma da sua mais sucinta maturidade no alto de seus 25 anos bem vividos. Se eu não havia morrido de inveja, com certeza iria me matar - ou não. Eu percebi que nem meu corpo aguentaria mais um instante de tanta maturidade que com certeza o deixava bem mais perto do apodrecimento do que eu,  verdinha no alto da árvore.
Em um outro canto da cidade o telefone tocou. O telefone dele já não tocava mais, ele não quis sentir nada, só quis pensar. Ela não quis pensar, só pegou as chaves do carro e saiu em direção à outra pra professar a maior das verdades que ninguém nunca quis ouvir: Nadie se curo, sino se puso enfermo /Y es tan frecuente como extraño/ Si no puede hacerte daño, no te ara feliz. Eu agradeço. Não posso negar a fé e nem meu paladar, não posso negar que sou teísta e nem que eu sinto muito, não posso negar nada disso mas não me peça pra arguir com você e lhe dar meia dúzia de argumentos lógicos pra provar tudo isso: viver não é lógico, sentir menos ainda.
Nunca me dediquei aos estudos de gramática, à leitura de clássicos, aos estudos físicos e matemáticos, à geometria ou ao desenho técnico, muito menos à física da música e suas teorias. Nunca me dediquei à filosofia. Ponto. Nunca li uma obra completa de Machado de Assis. Não decorei as letras de Chico Buarque e muito menos Caetano, não elocubrei interpretações para as poesias. Mas escrevi, toquei, desenhei, rabisquei, pintei, cantei e amei tudo que já fiz e toda a imaturidade que ainda sou. Abracei a mulher com quem discuto todos os dias sobre defeitos que provavelmente nunca se moverão enquanto ainda me ressentia pelo dia anterior e lhe disse que a amava. Não esqueci nada, mas perdoei tudo.
Não me negue o direito de perdoar fechando os olhos para a culpa, não me negue o direito de te amar, de te fazer e de te destruir, de te odiar, de te desprezar profundamente, de ter nojo de você e da sua condição imundamente humana, da sua prepotência infantil e dos seus vícios ridículos, da sua maturidade entre aspas da qual eu já experimentei e cuspi de volta no prato - maturidade essa que é entorpecimento puro. Não me negue o direito de amaldiçoar, de te machucar e de partir sua cara em dois. Não me negue o direito de espalhar cartazes pela cidade ridicularizando suas manias, não me negue o direito de me ressentir. Mas principalmente lhe peço que não SE negue o direito de tudo isso: de ser odiado, desprezado e ressentido por todas as coisas que fez. Não se negue a lei da física dividindo na mesa de bar minha vitimização sem sentido e o quanto vocês todos cientistas são maduros. Não me negue o direito de ser humana.
Hoje escrevo de baixo, entre os cobertores da minha cama e uma satisfação imbecil e vã toca minhas maçãs do rosto toda vez que percebo nos reflexos que sou verde, imperfeita, impassível de ciência. Que sou frágil, que a vida é frágil e o amor mais ainda. Que eu posso desmanchar na primeira chuva de verão. Que todos os conceitos que aprendi não me dão o dom da predição e que apesar de toda a certeza que carrego de que eu amo o que sou, não posso garantir a você que podemos baixar a guarda e seguir lado a lado. E tudo isso me satisfaz, o modo como eu não hesitarei em pular dos mais altos dos prédios com a certeza de que não há grades de proteção lá embaixo só pela liberdade da queda, sem negar os urros de agonia quando o fim chegar. E eu quero que você ouça cada um deles.
Ele me disse que eu sabia como você era e que eu não podia sentir muito por isso. Agora eu digo que todos vocês sabiam como eu era e que eu decreto aberta a temporada de ser humano: salve-se quem puder, não haverá ciência ou método científico capaz de predizer meus comportamentos. E eu, meu bem, meu amor, meu cretino, sinto muito: só posso viver o futuro se eu viver o presente.

Sem mais ou com ainda uma eternidade por vir,
F.

3 comentários:

  1. PIREEEEI!
    Seu texto de inauguração de nova fase está incrível!Mais claro impossível... E quanto mais claras forem as coisas melhor.

    ResponderExcluir
  2. eu tambem acho que a transparencia é a nova tendencia hsuaiheiauhsaiushaisa

    ResponderExcluir

deixa tua marca