terça-feira, 25 de maio de 2010

te vejo do outro lado.

Não perguntou seu nome ou sua idade, perguntou como estava - não que a resposta fizesse diferença. Ela ensaiou seu melhor sorriso enquanto pensava que não tinha nada a perder, com os olhos grandes e contornados com maquiagem borrada. Ela disse que amar era como escrever a lápis, ele disse que era como escrever a caneta: pra solucionar as rasuras imperdoáveis, ela recorria à borracha; ele, virava a página ou escrevia por cima.
Ela soube que nas binomiais, só cabia um lado da moeda - questão de sorte, ela diria; questão de estatística, ele diria. Ele arrancou as roupas dela sabendo da vulnerabilidade juvenil em que ela se encontrava, ela se deixou despir sabendo da própria vulnerabilidade. Sartre sorriu no túmulo. Ela embarcou no último avião depois de fazer as malas que deixaria pra trás, ele ficou. Ela lavou sua alma com álcool do outro lado da fronteira, ele fez não-se-sabe-o-quê do lado de cá. Eles retornaram ao erro já conhecido: ele perguntou, ela falou das letras minúsculas no seu contrato. Ele disse sim, ela também.
Eles viraram nós, ela quis ficar. Ele embarcou no primeiro avião, ela permaneceu aonde sempre permaneceu. Ele voltou, ela disse que o amava enquanto chorava, ele a beijou, ela o despiu sabendo da própria vulnerabilidade. As tardes multiplicadas por cinco agora eram divididas por 10. Ela tomou fôlego antes de mais um mergulho, ele não tomou nada. Ela pensou em algum recomeço, ele pegou um ônibus qualquer. Ela levou boas vindas de volta a ele, ele levou um ponto final. Ela pediu uma razão, ele deu uma mentira. Ela perguntou do amor, ele se contradisse. Ele disse que algumas verdades machucavam, ela disse que algumas mentiras eram crueldade. Ele disse pra ela ficar bem, ela sabia que ele não dava a mínima. Ele falou que ela tinha uma grande imaginação, ela soube que era verdade: ela criou um nós onde só existiu ele. Ele virou a página. Ela comprou um caderno novo. Ele disse até logo. Ela disse "te vejo na outra vida", sabendo que ele não acreditava em nada disso.

E então ela decidiu morrer como se nunca tivesse vivido. E não era mais uma de suas falácias: as noites doloridas de fevereiro eram as únicas que lhe haviam dito a verdade.

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