quinta-feira, 13 de maio de 2010

rascunhos


Ele apareceu, como era de costume, no meio de uma aula. Ela sorri ternamente ao ver seu rosto juvenil de 18 anos com os traços de uma vida inteira que fora dura com ele, ele nunca reclamou nada, e ela tinha a mesma idade e tão poucas convicções. As conversas eram triviais, o tempo estava acabando, os caminhos se fechavam, as estradas se abriam, o abraço se apertou.


"eu não sei o que fazer com meu trabalho, com minhas escolhas, com meus estudos, com minha família, com meus amigos.", ela disse em um ar cômico para que rir de si mesmo fosse mais fácil. Não era.


"você é uma pessoa brilhante, nao desperdice isso." ele respondeu.


No fundo ela sabia que excesso de receio era medo justificado, medo de não ser tudo o que poderia ser porque ela teve preguiça, ou só se achou boa demais para ser boa. Ele a abraçou com toda a certeza e razão que lhe eram possíveis, querendo compartilhar nas partes de seus corpos que se conectavam tudo o que ele sabia que poderia ser, todo seu dom de vidência.


"você é brilhante como uma vela queimando. Mas você ficou dentro de uma redoma, eu não sei em que ponto ou como isso aconteceu, mas você criou um limite invisível que não deixa ninguém se aproximar demais e no entanto permite que assistam na primeira fila você se apagando lentamente, sufocando seu próprio brilho. Você tem que quebrar a redoma de vidro antes que o oxigênio acabe. Você pode queimar um mundo inteiro de oxigênio.' ele completou ainda no abraço.


Ele não percebeu que enquanto isso se desenhava uma lagrima no olho dela. Ela tinha medo da água e do vento, das tardes e das noites, de tentar e de conseguir. Ela já não percorria os bares e as quase madrugadas, os risos torpes, as cordas desafinadas e bambas - tudo em nome do equilíbrio, a maior contradição e desnecessidade quando se decide sentar e esperar que a vida passe. Ela perdeu um jeito de rir que tinha, um descompromisso no olhar. Ela deixou pra trás o que era de melhor em si pra ser mais leve caminhar, a quilômetros de qualquer vida. Ele só a conhecia há dois meses e sabia que ela estava leve demais para se manter no chão.


'Queima o mundo que é só assim que ele vai brilhar pra todos os outros que não tem chama alguma.' ele disse enquanto se despedia.


Ela voltou a aula, da qual nao restou nenhum ensinamento a nao ser as palavras dele. Ela sabia que o tempo tropeçava quando ele corria, que os desastres eram questão de tempo e disposição, ela desejou deixar a cidade já que não podia deixar a vida.



(...)


No dia seguinte a caminho da universidade anunciou que desejava queimar seu dinheiro em uma viagem qualquer, em uma mentira a mais. Seu pai foi condescendente com o que, ele pensou consigo, sem jamais admitir a filha, ser provavelmente um dos últimos desejos dela ou uma das últimas coisas a se tentar. E mesmo o tempo contou a seu favor, ela ensaiava os erros com graça e leveza antes de sair de casa para que cada dia fosse mais fácil não olhar pra trás, fosse por medo ou por vergonha.


Fazer as malas era fácil, não pensar mais ainda. O futuro era agora pra todos aqueles que conheciam um atalho para o fim das contas - o pensamento lhe causou um calafrio que a fez sorrir amargamente. Ela abafava sua imaginação porque suas palavras eram afiadas demais e sua solitude, ciumenta. O tempo corria e já não tropeçava mais, o tempo aprendera a se equilibrar. Ela contou os comprimidos, contou as histórias que escrevera e os motivos que já havia inventado. Ela sorriu amargamente, ele mostrou a ela todas as possibilidades de sair da redoma, gentilmente. Ela hesitava por medo do frio, das tempestades e principalmente, pelo medo de ser humana. Antes de inventar uma desculpa a mais, antes de prometer deixar as letras, antes de qualquer invenção, ela soube que não podia voltar atrás: não havia mais passados ou presentes, era tudo falta, era difícil estar consigo por horas seguidas de distrações.


(...)


O tempo corria. Ela já tinha 20 anos. E era uma questão de tempo, de corridas, de condicionamento não tropeçar. Ou tropeçar e não cair. Ou cair e se levantar, sem perder o fôlego. Porque ela se poupava tanto se ela já não acreditava no futuro? Viver com medo não é viver, ele disse. Eu fiz besteiras e você não faz sentido, as pessoas acreditam em você como clientes que provam amostras grátis e te levam pras suas vidas, você acha certo não tentar porque você sabe que voce seria brilhante? Ou voce tem certeza que é uma farsa e por isso não quer tentar? Eu sobretudo acredito no que não vejo, e voce?


(...)


seu amor às palavras não a sustentava mas as palavras que ela cultivara a amavam profundamente, antes que elas caminhassem em ressentimento, deitaram-se ao seu redor e ficaram por mais uma noite e um sempre. Todas elas sabiam que estavam condenadas umas às outras por toda uma vida que já era grande.


'E será muito mais', ela disse retomando a caneta e o lápis, de quem jamais se separaria outra vez pela certeza de que um rascunho sempre poderia ser melhorado.

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