quinta-feira, 20 de maio de 2010

ignorando as grades de proteção


pensei que não queria mais escrever, mas percebi que isso era essencialmente uma parte de mim. meu coração apertou no meio da noite, as sirenes soavam não tao longe quanto eu desejaria, os policiais iam rondando e as prostitutas rodando a bolsa na ponta do dedo, no ponto de ônibus. O ponto de conversão, o ponto de partida e tantos outros pontos que só me inspiravam o desejo de ser reta e percorrer a menor distância entre dois deles. meu pensar me levava de volta no tempo em que eu tinha oito anos e minha mãe dizia que eu poderia ser tudo o que eu quisesse. eu quis ser tudo, ela disse que eu já era. aos 20 anos eu não conseguia viver sem deixar rastros e traços, eu me imprimia em todo lugar com minha infâmia: não vi bauhaus, não li nenhuma obra completa de machado de assis e nunca tomei aulas de história da arte. ah, e ainda questionei o maniqueísmo hipócrita dos revolucionários em toda parte: hitler e todos os outros tiranos começaram assim, sendo a reta entre esses dois pontos tão próximos.

rabisquei outro desenho no caderno que pedi a meu pai fazia tempos. Os lápis foram encontrados na rua enquanto minha mãe caminhava. A hora passou rápido enquanto eu corria pelos riscos, a casa em constante movimento parou pra assistir minha arte final aquela noite, já fazia quase um ano desde meu último rascunho e ao fim da linha me aplaudiram. pensei que não queria mais desenhar, ouvi dezenas de vozes condenando minha ignorância e vulgaridade, meu vocabulário baixo, minha maquiagem pesada e meu gosto excêntrico. me escondi atrás de um livro qualquer e de tudo que eu já fui: uma pessoa ruim. as mães sorriam amarelo pra mim, as crianças queriam ser eu. mais um de meus cachos escapavam do coque e eu mordia mais uma caneta com as pernas cruzadas elegantemente, sempre me contradizendo - o que eu fazia de melhor... ou não?

tive vontade de ir até a sinuca no subsolo da oficina da outra quadra e pedir uma dose de whisky sem gelo e um marlboro. tive vontade de me embriagar com a fumaça dos cigarros, com o aroma do ácool destilado. tive vontade de não deixar minha cama outra vez. (...)

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