sábado, 27 de março de 2010

carta a quem comover

http://oneoceanaway.blogspot.com

"sei que meu amor se consome na velocidade do vento, a alguns nós, como um veleiro à deriva. mas sem porto pra se atracar, amor auto-sustentável, na época em que os poetas todos fazem o maior minuto de silêncio da humanidade em honra a toda aquele que ainda vive, que aos mortos, logicamente, já basta uma eternidade de não sons. há quem diga que a tecnologia fez mágica com o passar do tempo, que já não é regular e se move em constante aceleração. besteira, syd barret said so 40 anos atrás.

nem violão nem caderno de cartografia são capazes de aprisionar os traços de mim, que vão mudando e mudando, como se ser fosse não mais uma gravura e sim uma animação. ainda hoje lembro a primeira vez que me deixei escapar por entre os dedos que, feliz ou infelizmente, seguravam uma caneta bic em uma aula qualquer. lacan explica. e ainda hoje eu vivo na sombra das minhas palavras, um conforto inefável e um descontrole necessário que nem modernidade nem tecnologia me proporcionaram.

não peço afeição ou compreensão, mas deixa ficar minhas palavras por um instante: que vida existe após a morte se não todas? quem já morreu que entenda o que eu digo. sabedoria barata adquirida entre um sóbrio gole e outro de suco de limão, já não posso nem com café ou chocolates que meu sorriso já se amarelou com tanto cotidiano sabor café, mas que agora, pasme, não é mais passado sequer em filtros de papel: a vida agora é instantânea, em pó, pronta para consumir na primeira dissolução. e ironicamente já não há mais nem borras, é tudo tão momentâneo e trivial que quem precisa das marcas do pó molhado do café no fundo da xícara para cantar o futuro?

e assim, o homem se supera, apagando o passado e vivendo em um hiato insustentável entre o passado e o futuro, sem presente - e eu comungando de tudo pra não morrer de fome: o futuro é agora, meu bem.

e de todas as coisas por dizer o melhor de mim e com certeza de vários outros escritores frustrados é tudo aquilo que ele já não pode dizer. estamos ilhados, estamos à deriva e enquanto fernando pessoa diria que navegar é preciso, um escritor qualquer em algum canto do cyberespaço diz que cada um tem o wilson que merece. quem assistiu o náufrago sabe bem que ele tem razão..."

2 comentários:

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