quarta-feira, 3 de março de 2010

artigo indefinido

Por indefinição, escolheu a poesia na mais genuína forma de se fazer nascer perante o mundo, quase uma debutante. A vida é urgente lá fora, os 8 viraram 80, as novidades acontecem na velocidade da rede de 100 mbps: o homem agora é imortal enquanto tem seus 5 minutos de fama em um confinamento qualquer, onde tudo é agora ou nunca mais, a morte é mistificada e o amor é obsoleto - assim, com palavras difíceis mas sinceras. A corrida continua, a felicidade também continua se escondendo entre as páginas de alguma revista que eu fiz questão de não comprar, hermeneuticamente eu desprezo essa alegria vã. E passe bem, meu bem.

Por indefinição, escolheu a vida, a única certeza que nucna se confirma. O futuro se abrevia, o passado fica imenso nos olhos conforme constata-se que há horizontes para todos os lados e que ir em frente ou correr em círculos vai resultar na mesma estática. A rua se desmancha na chuva, os carros perdem o controle, os governadores perdem o controle e a correria continua desembestada numa vida que mais se parece um boteco, onde tudo é consumido sem que se sinta sede. A pressa é estúpida, pensou enquanto lhe justificavam a velocidade com que se sobrevivia atualmente daquele lado do mundo como a maneira mais eficiente de viver, de adiar a morte ou de qualquer coisa do tipo. Contraditório.

Por indefinição a terra tremeu. Seu coração despedaçou com a tragédia assim como os blocos de concreto. Braços, pernas, esgoto, pessoas desconhecidas mas ainda assim pessoas. O lirismo era uma maldição na contemporaneidade e tudo soava adversativo (maaaas... ooooou...). Fez então 1 mês de silêncio pelos homens, que eram a personificação da morte última com sua falta de auto-controle. Enquanto os prédios desabavam, a chuva se precipitava e o clima se tornava imprevisível a clareza era de que só a Terra tinha algum poder legítimo: do pó viemos, e a terra nos há de comer no final das contas.

Por definição, escolheram o apartamento no condomínio de luxo, o carro zero km, os programas de fim de semana, o trabalho exaustivo e a família feliz depois infinitos bons momentos descartáveis. Por indefinição, escolhi a poesia como forma de me fazer viver. E vida só é vida se houver a certeza de morte...

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