domingo, 10 de janeiro de 2010

carta na manga

"meu caro,
hoje assino embaixo. é o dia em que saio da história para entrar na vida, com os olhos pintados e as mãos limpas, com o sorriso cinico de quem viveu seis vidas e não quer saber de quantas se faz um gato: se a gente cai de pé eu não sei, mas que a gente sempre se levanta, disso eu tenho certeza.
morrer é facil, viver tambem. dificil mesmo é deixar ir, ainda mais sem olhar pra trás - eu diria impossível. sei que minhas letras ainda estão marcadas em alguma parte do teu caderno de notas póstumas, com todo meu sentimento e pesar de saber que minhas palavras estavam secando. meu lirismo vive de doer, e os 20 - não sei se anos, amores ou miligramas de fluoxetina - não me permitem chorar. a estiagem chegou e eu bem sei que nunca soube poupar nada, nem amor, nem melancolia, nem doces e muito menos palavras.
as lembranças ainda me fazem cócegas nas esquinas dos lábios, as melodias insônes ainda ricocheteam meus ouvidos nas noites mais longas. e o presente definitivamente me coloca sorrisos nos lábios; e esse é o dia em que a poesia se esgota, sem terminar jamais. eu já não sou mais tão cretina: um ano se fez pesar junto com as folhas caídas do calendário.
minha poesia não viverá jamais de bons hábitos, amores perfeitos e vontade de viver; minha poesia não será jamais pintada com as cores do verão tropical ou de desejos realizados. a bagunça me agrada, e quando tudo está em seu lugar eu simplesmente não posso me encontrar: é explícito demais. deixo nos rascunhos a melancolia, os tons de cinza e a desgraça iminente; deixo nos rascunhos e nunca mais nas entrelinhas - já não posso me deixar subentender sem deixar mortos e feridos.
para que eu já não minta mais, calo todo e qualquer lirismo de seis da tarde, a hora mais dolorida de minha existência. para que eu já não me procure mais, para que pare o genocídio que se tornou meu delírio existencial me deixo encontrar na vida, e com isso perco minhas palavras. e que tu guarde na lembrança e na ponta do teu lápis o que eu já fui de melhor e de pior, vivendo no escuro, enquanto eu sinto meu brilho se extinguir por ter encontrado a luz no fim do túnel, minha melhor amiga agora.
diga a ela que a amei e que a amo, diga a eles que mandei minhas lembranças, diga a ele que mandei minha juventude e a economia de combustível que só um 1.9 pode proporcionar. saio das linhas, meu caro, eu e o amor somos obsoletos just in case you haven't noticed yet. a estiagem chegou, mas o inverno e as noites em slowmotion e vermelho sempre serão nossas.

sem pontos finais, porque a vida sempre continua (...) "

2 comentários:

  1. o amor encanta até aos duros corações e deixa suas marcas... seu texto traduz a vontade e o desejo tão díspares e por vezes tão pertos... abs.

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  2. também não me encontro no certo e acredito que "as famílias felizes são sempre iguais"...também me encontro no caos...e só reflito em meio à solidão!
    certo, a vida continua! apesar e contudo!

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