quarta-feira, 4 de novembro de 2009

último trem do teu não-riso

antes que o sol viajasse pro outro lado do mundo e só lhes restasse o escuro ele colocou em suas mãos os livros dela e suas músicas prediletas, tirando das mãozinhas de menina as correntes amarradas ás responsabilidades de cultivar vidas alheias: vai que tu pode ir longe, guria. certamente ele sustentava a crença de que se ela usasse seu talento de pintar vidas consigo mesma ela estaria a salvo. os dedos pesariam mais se ele tirasse a própria vida, ela pensou antes de dizer mais alguma coisa ou apagar mais um número de telefone. as conversas correram soltas junto com o vento seco da noite, algo entre setembro e outubro mas ainda indefinido, a única certeza de que estavam ainda e então estagnados no trânsito de brasília. viajantes e nada mais.

ele se colocou em uma redoma dessa vez, afastando-se do toque dela, os olhos mortos e pesando também. mais que o silêncio até. bonito vestido, eu gosto. ela se surpreendeu: eu também. as palavras saíam difícil por entre os dentes e garganta vazia, como se ela perdesse o dom de destruir os pedacinhos de silêncio. ele achou que ela talvez tivesse perdido o dom da mentira que ele sempre achou bonito como um vestido lilás em uma garota não tão-bonita. os carros eram as coisas de sempre, as filas as de sempre, os produtos os de sempre, os assuntos também, mas eles eram mercadoria nova na lista de consumo do mundo inteiro: hmm, interessante... naquela noite os risos foram todos milimetricamente calculados e metódicos, ele lembrou que ela era cética, controladora e descontrolada... e deu a ela de presente as promessas mais falaciosas, do jeito que ela sempre gostou.

ela pontuou o período em que ele estava entrelinhado antes que precisasse usar óculos pela vista cansada de procurar o que nunca esteve escrito. ironicamente naquela noite de despedida eles caíram na gargalhada e pela segunda vez ele lhe mostrou os dentes: não agradaram a ela, mas eram novos.

os sinais se abriram e (se) tocaram. próxima parada: (insira sua esperança aqui).

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