domingo, 5 de julho de 2009

águas de março


'você cheira a mentira,' ele disse enquanto segurava o rosto dela entre os dedos da mão direita com uma força que ficava entre a ironia e raiva, a voz seca. ela o olhou displicentemente enquanto tentava esboçar um daqueles meio-sorrisos cínicos que tanto gostava de dar a ele de presente por tais constatações. ele a soltou com certa violência, fazendo-a pairar levemente antes que tocasse o chão.

'nomeie a mentira que eu te faço um retrato, meu bem,' ela sorriu agora livremente.

'você é intocável, mesmo que transite entre todos nós, mortais,' ele replicou. 'você não é o que sente, você é rasa.' e voltou a mirar nela. todos os alvos, todos os sinais.

'não diria que sou rasa, diria que minha serenidade aparente é superficial e só. e se você não consegue sentir toda a fúria e intensidade das minhas constatações vãs cotidianas é porque você não tem oxigênio suficiente pra me fazer queimar - ou pra mergulhar no meu oceano. eu acho que você se afogou cedo demais,' ela fez uma pausa, redirecionou o olhar a ele. 'mas isso é só uma metáfora, não uma hipótese,' e ela sorriu outra vez, cinicamente.
e ela, que era 75 % água, não poderia ser muito diferente de um oceano.

Um comentário:

  1. Perfeito!! Adorei este breve trexo, uma situação muito (posso dizer) dramática mas com muita ação embutida... Parabéns.

    ResponderExcluir

deixa tua marca