sexta-feira, 12 de junho de 2009

escorpião




o corpo pesado e quente ficava estagnado na cama, o som indistinto das vozes misturadas com um zumbido que ela sempre ouvia pela manhã, algo entre a realidade de não se morar sozinho e os delírios matutinos - coisa da insônia terminal que a pegava de surpresa ainda nos lençóis.

nem sempre foi assim, seus olhos estão apagando, seu coração já não queima faz tempos. e você está em coma, não reage a nenhum estímulo. inalcançável, como sempre quis. não quero tua liberdade ameaçada, não quero esse teu mundo de palavras ou de imagens, teu mundo de sons. eu quero só o teu amor, e só. vejo um escorpião em teus movimentos, em teu temperamento sempre difícil - e mal tem 19 anos. com um veneno letal, afastando qualquer vida que se move(...)

ela levantou, talvez ainda adormecida: é difícil, quero tanto que viver que não posso. não posso. viver é letal demais, viver mata. mas eu amo todos vocês, eu sempre amei, mas não posso lidar com a dor no não-amor, não posso lidar com o fato de nunca ser bastante. não posso aceitar nada disso, porque meu amor é universal e ao mesmo tempo, pequeno demais, que é pra ser mais intenso.

você não destrói tudo o que toca. mas vejo que você está se matando um pouco mais dia após dia. (...) não era pra ser assim. o escorpião, minha filha, quando se sente ameaçado, injeta seu veneno em si mesmo. e morre, sem socorro.

suspiro.
eu desisto oficialmente. mas eu amei todos vocês.

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