quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

vento no litoral

'agora está tão longe e ver a linha do horizonte me distrai
dos nossos planos é que tenho mais saudade
quando olhávamos juntos na mesma direção
aonde está voce agora além de aqui, dentro de mim

agimos certo sem querer, foi só o tempo quem errou
vai ser difícil sem voce, porque voce está comigo o tempo todo
e quando vejo o mar, existe algo que diz
que a vida continua e se entregar é uma bobagem
já que voce não está aqui o que posso fazer é cuidar de mim
quero ser feliz ao menos
lembra que o plano era ficarmos bem?' Vento no Litoral, Legiao Urbana


ela era uma criança brincando na praia, era assim que se sentia. e ele insistia em segurar sua mão, mas ela já não sabia se era ele ou ela que insistia. mas alguém não queria largar, talvez os dois. ela olhou para o mar em preto e branco, o dia cinza a abrigava e ela sentiu o vento mas não sentiu nem calor e nem frio. sentiu só o vento. e se recusou a olhar para ele mais uma vez.


mais uma vez, ela pensou. quantas vezes não tinha se flagrado olhando pros olhos grandes e brilhantes, cheios de preocupações por vezes sérias demais para a pouca idade dele? incontáveis. e lembrou-se de como costumava se sentir ao fazer isso, que ela descobrira a pouco ser uma de suas atividades favoritas - olhar para ele, o garoto indefeso dentro do vidro que o separava do mundo.

'ei, me deixa ir.' ela falou com uma gravidade irreconhecível, sem sombras da garota que era, os cabelos quase negros lhe cobriam partes do rosto, os olhos vazios e mais negros que nunca, a boca pequena e trêmula. seus joelhos hesitando, as mãos fraquejando. frias. mas nunca o olhando nos olhos.


ele olhou para ela, tão frágil, tão pequena, tão vulnerável. mas tão convicta. porém ele não reagiu por alguns segundos, até perceber que a mão da garota estava escorregando da sua. ele quis pedir pra ela ficar, mas sabia que isso provavelmente a mataria. ela não reconheceria um beijo na face, era perigoso quando as linhas eram tão paralelas: ela, que sempre via de longe, acharia que as linhas se cruzariam em algum lugar no tempo-espaço sem perceber que era apenas uma ilusão de óptica. mas ainda assim ele não soltou a mão dela, mesmo sem saber porque.


'me deixa ir.' ela agora tinha um brilho diferente no olhar. um desespero que fazia sua voz subir quase 1 oitava.


ele viu que era um tipo de desepero líquido, era uma lagriminha que resistia em cair. e ele amparou a gotinha com seu dedo indicador antes que ela despencasse do abismo, antes que ela atravessasse o limite secreto que separava a garota forte da garota vulnerável. ele a encararia se ela levantasse o rosto, então segurou o rosto pequeno entre suas mãos e forçou-a a olhar nos olhos. ela se recusou outra vez então ele a abraçou, brincando com seus cabelos.


'me deixa ir.' agora ela falava com uma voz trêmula, soluçante. 'eu não aguento mais.' ela colocou as mãos no rosto para não senti-lo de forma alguma, mas sem forças pra sair da bolha que ele formara ao seu redor.


ele a soltou de uma vez só, fazendo-a cambalear. 'então vai.' ele falou com uma seriedade e força que a fizeram congelar.


e ela foi, pulando as ondas que se formavam, sem tirar o tênis e sem olhar pra trás. livre pra se afogar, livre pra mergulhar no mar que era ela mesma.


ali parado ele percebeu que ela voltaria, e isso o aliviou. mas sentiu algo se partir no seu peito quando pensou que talvez ela voltasse boiando nas ondas do mar...

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