sábado, 14 de fevereiro de 2009

sonho de uma noite de verão


... não são só memórias, são fantasmas que me sopram aos ouvidos coisas que eu nem quero saber!' Memórias, Pitty.
elas me atingiram de novo como um meteoro, inflamando um céu negro com as cores de fogo. corri para o computador, vasculhei meus arquivos e concluí que nada havia sobrado daqueles dias com ele, não havia evidências físicas palpáveis. as que existiam eram comestíveis e já tinham sido liquidadas.

afundei na cadeira, não tinha nada. pelo menos nada que provasse aqueles nossos dias loucos, aquelas noites inconsequentes. nada, nada, nada. me senti atormentada: e se tudo isso tivesse sido fruto da minha imaginação tão selvagem? só podia. tentei reviver cada instante, cada música, cada ansiedade e falhei. e me senti miserável, não tinha sequer uma lembrança.

mas não havia volta. levantei e fui arrumar meu quarto, a eterna bagunça que semrpe parecia mais em ordem do que eu. constatei que não encontrava uma das minhas luvas de renda que eu mesma havia costurado. tentei lembrar onde havia a deixado e o que sobrou de mim foi atingido outra vez por uma lembrança:

ele acariciava minhas mãos sobre seu peito, tentava tirar minhas luvas. 'eu que costurei, sabia?' eu disse orgulhosa. 'voce é uma mentirosa' ele respondeu sorrindo. 'serio, olha o acabamento...' eu mostrei não tao orgulhosa. 'hm, é verdade.' ele aceitou enquanto retirava uma de minhas luvas e analisava, terminando por guardá-la num bolso. olhei nos olhos dele, algo havia mudado profundamente, nossos destinos estavam se separando e sabíamos disso. passei a mão levemente na face dele, fechando os olhos dele e sacudindo os dedos numa dança engraçada. 'o que foi?' perguntei ao ver a expressão sorridente dele. 'voce vê filmes demais...' ele respondeu acusando. 'voce tem ciumes de mim?' ele perguntou. 'tenho.' respondi cabisbaixa. ele não disse mais nada, apenas continuou me beijando e me encharcando com cerveja enquanto o som tocava alto ao redor. era quase hora de ir embora 'ei, me devolve minha luva!' eu reclamei fazendo um biquinho. 'não, é minha garantia.' e ele escondeu mais fundo a luva.

e a memória se dissipou como uma neblina. o sentimento tinha ido embora e a única evidência de que um dia estivemos no mesmo mundo era a ausência de uma evidência - pelo menos pra mim.
a falta era a maior prova de que um dia estivemos presentes.

sobre uma mão que sentia mais falta da luva do que a luva da mão.

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