segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

sala de espera

certo dia um rapaz alto - não muito bonito, mas bastante charmoso - adentrou a sala pequena, não parecia um paciente. sentou-se e percebeu uma secretária engraçadinha por ali, que estava boquiaberta perseguindo alguma coisa no ar com os olhos e brincando com uma caneta na mão.


paf. 'uuuuh, achei que era uma mosca, sabe? era só um fiapo voador. da minha roupa eu acho. oi, voce!' ela notou a presença do homem tímido e com cara de menino e abriu um sorriso mostrando seus dentes um pouco amarelados, talvez fosse o contraste com o batom vermelho.


ele pareceu sem graça. abaixou a cabeça, coçou o queixo e respondeu a saudação. ele não a achou exatamente bonita, mas era atraente, era amável por algo que ele não sabia o que era. mesmo com aqueles grandes olhos mal maquiados, aquele batom extravagante e toda a indumentária estranhamente colorida, não sabia o que chamava mais atenção no conjunto.

o relógio marcava um dia de abril, devia ser umas 10 da manhã. ele já havia visto a secretária ali, ele já estivera por aquela sala de espera milhares de vezes. mas dessa vez ela falou com ele, que não gostou e não desgostou. mas a partir desse dia percebeu uma tentativa engraçada a cada dia da secretaria para se aproximar dele de alguma forma. 'ei voce quer um café?' ela um dia lançou-lhe com uma xícara cheia já bem na sua frente.

e nisso o relógio mostrava: 12 horas do mês de setembro. quando deu por si já estava tendo longas divagações com a secretária, que era cheia de humor infantil e tinha uma risadinha contida. quando o relógio indicou a tarde de um dia de dezembro, percebeu que já estava até contando seus segredos para a menina-secretária. era assim que ele já estava a chamando: menina.

certo dia percebeu a secretarinha triste, distante. ofereceu-se para pagar a ela uma cerveja, mas ela não podia demorar muito. fugiram rapidinho para um mercadinho ali perto. já era janeiro. ela bebeu como se fosse água e se disse satisfeita. ele ainda degustava a sua, achou que ela bebera rápido demais, devia ser daquelas que gostava de bebidas mais fortes. ele a viu do seu lado, evitando olhar para ele. ele se aproximou pouco a pouco e ela não percebera que já estava tomando o lugar da cerveja, estava nos braços dele. e não podia respirar, logo, nem ele.

'ei, eu não posso. eu estou esperando pela doutora. e não quero te magoar.' ele a soltou no ar.

'ok.' ela se recompôs rápido.

ele se surpreendeu, esperava lágrimas. 'tudo bem?'

'eu já tô acostumada. pacientes vêm e vão na minha salinha, sabe? mas só passam, nunca ficam. sempre atrás da doutora. e ela nunca aparece. voce agora tomou sua decisão - apesar de ela ter gosto de cerveja misturada com batom de frutas vermelhas - e vai atrás da doutora na casa dela. pronto, voce está curado. a medicação que voce precisava, já tomou: decisão. e tomou uma das grandes pelo visto, tá com cara de quem se engasgou.' ela falou enquanto ainda retocava sua maquiagem.

ele ficou pasmo. ela tinha sangue frio, se é que tinha sangue correndo em suas veias. 'mas... eu não...'

'não me venha explicar uma espera, eu estou naquela sala de espera desde sempre, esperando o paciente que vai me tirar dela e perceber as coisas. e voce me tirou de lá e ousa querer me botar lá de novo. não me toque. ' ela agora parecia brava com ele, a quem afastou com a mão cheia de unhas roídas e mal pintadas.

ele hesitou. 'eu sempre esperei pela doutora, eu nao tive intenção de te fazer acreditar em nada.'

'ok, vai. e quando estiver lá no pronto socorro, vai perceber que a doutora sempre fui eu.'

tic tac

Um comentário:

  1. a vida é doce... infelizmente...

    *tua autoreflexão relembrada pelo o meu post é meio dura, nao?

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