domingo, 25 de janeiro de 2009

tudo é beira.


'digo que desde aquele dia as coisas me estranharam, meu querido amigo. a noite tem sido mais traiçoeira que nunca, ela agora deve me odiar por eu tê-la trocada uma noita ou outra por um papo qualquer, por um silêncio qualquer, desses contrangedores mesmo. ela me relegou à cama vazia, nem insônia nem sono. deve haver algo de mórbido, algo de macabro em uma garota estranha como eu deitada sozinha em uma cama como a minha, tão confortável. deve haver algo de natural, não?
Ah, eu suspiro entediada, impaciente. que venha o dia, ele sempre vem, não é? e isso não me conforta, porque é um falso dia, é um daqueles dias cinzas que só tem uma nuance em todas as suas 12 horas. me tornei uma pessoa exigente demais até para com a luz do dia, pra não dizer chata. E eu saio à varanda de 30 em 30 minutos para constatar que o chão lá embaixo nunca foi tão convidativo. Meu amigo, meu grande pequeno amigo, meu irmãozinho, faz semana que estou à beira de tudo, de um ataque de nervos, à beira de um abismo, à beira de um parapeito. e eu nunca tive tanta vontade de pular de cabeça em algo como tenho agora.
É irônico. eu pensei que te salvaria e veja como estamos, eu tenho alguns litros de álcool, alguns comprimidos amargos, uma insônia caprichosa e um celular que não cessa de não tocar. Eu creio que é meu insumo de criação, e eu nao posso negar nada disso: não posso negar as idéias negativas, o impulso de auto-destruição, a agonia infinita de 3 minutos. eu não posso - e nem quero negar nada. eu preciso da melancolia como preciso do ar.
e eu tenho uma sensação estranha - além dessa necessidade absurda de te colocar sempre depois de um pronome possessivo, meu amigo - aquela sensação de quem está vendo a luz no fim do túnel sem saber se é o fim ou só o começo do caminho.
e eu digo que desde aquele dia, meu irmão, as coisas me estranharam. e eu não estranhei nada.'
cartas e mais cartas da madrugada...

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