segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

o crime é ao mesmo tempo a sentença


ela olhou o céu lá fora, azul e límpido. fim de tarde, horário de verão. que dia seria aquele? na verdade nem importava, ela andara seguindo o mesmo ritual dia após dia: o fone de ouvido apertando-lhe as idéias entre as orelhas, o chão morno do quarto e a vista do 2º andar. agora a casa estava vazia de tudo, de pessoas, de ideais, de valores. até mesmo os pais haviam desistido de enfiar-lhe alguma fé naquela cabeça cética, nem sombra da garotinha meiga que encantava a todos com a sua precocidade.

seu velho companheiro ainda ali, perdido em algum lugar do quarto - nos últimos dias havia vivido uma relação de amor e ódio intensa com aquele objeto mágico chamado telefone, ele sempre denunciava sua posição, e arremessara-o contra uma parede qualquer do quarto. isso não a deixou mais tranquila, pra falar a verdade.

pela primeira vez ela pensou de verdade no que seria o futuro, o desapego, sair de casa. pela primeira vez ela não quis seguir em frente. revirou sua bolsa a procura de uma saída secreta e encontrou as 3 peças que lhe entregariam a liberdade. 'hm... tão imprudente, so reckless' ela examinou mais o pacotinho, calculou se seria o suficiente. já não fazia sentido calcular, todo dia ela se matava um pouquinho e ela ja nem se escandalizava mais.

ela jogou a bolsa e os papéis para um canto do quarto, olhou de novo para o lado de fora do vidro. não conseguiu pensar em um motivo sequer pra ficar, nem um genuíno. suspirou tão fundo que mesmo os beatles em seu fone de ouvido devem ter ouvido. 'é, é chegada a hora.' e seu olhar atingiu o caderno vermelho semiaberto no chão, como um tiro certeiro. e ela ouviu vozes.

'você está condenada à liberdade, mas há uma condição: você viverá essas minhas 96 folhas antes de assinar sua sentença. e só.'

era só o que faltava, um caderno falante. mas ela refletiu sobre aquilo, 96 folhas não era demais. talvez 5 dias. talvez menos se a insônia fosse generosa. talvez mais se o telefone tocasse pelo menos 2 vezes. talvez infinitos. um caderno falante, ela pensou. devia ser sua alucinação mais consciente das ultimas semanas.

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