quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

liquidação

'quando voce cruzou a linha que voce nao conseguiu apagar
procurar prazer ao invés de amor não é tão condenável
e quando voce vê sua melhor amiga com outros caras
voce ainda se sente deslocado?

obrigada mas eu peguei aquela carona
e só Deus sabe o quanto eu quis acreditar

(...)

se ignorância é bênção, então me risque da sua lista
eu tô caindo fora.' Luv Lies, Aerosmith.

era perto de meia-noite, a insônia mais traiçoeira que nunca. ela procurava algo que a distraísse, passara as horas vazias tirando cochilos, ouvindo músicas de cabeça pra baixo, fazendo rascunhos que nunca se concluíam. então ela viu ali, na sua frente um deja-vu. Ah, como era traiçoeira a capacidade dela de aprender rápido às vezes.


'voce vai usar ela, não vai? é uma das suas eternas vingancinhas juvenis. um jeito de aliviar sua agonia. voce vai fingir que ama ela, que ela é interessante. vai dizer que ela é bonita e inteligente, que you were meant to be ... eu sei. é tão... voce.' ela estava realmente irritada, ela sabia o que viria e queria que quando viesse, pelo menos estivesse por cima - ficar por baixo seria inevitavel depois disso.

'uh, voce me conhece mesmo. é, é isso o que eu vou fazer e voce nao tem nada a ver com isso. nada. voce nao é minha mãe' e ele vinha de novo com seu complexo de édipo mal-resolvido.

'mas voce me ama igual voce ama sua mãe. e não ouse dizer que é mentira. nem pense nisso. e sabe o que vai acontecer? escuta muito bem, porque daqui há alguns meses voce vai amargar cada palavra dessa como amarga uma xícara de café.' ela jogou uma praga de mãe. ele estava condenado.

'...' ele não ousou desobedecê-la, sabia que só seria pior.

'voce diz que não gosta dela e por isso pode brincar, mas voce vai gostar dela. é isso o que acontece com seres humanos, a convivencia leva ao gostar. voce não é de pedra. e então voce vai se envolver mais do que gostaria e quando vir, ela vai te trocar. e voce vai sofrer mais, porque voce achava que tinha o controle. mas não tinha.' ela elaborava as imagens em um estilo cry baby, de janis joplin. 'e voce vai procurar alguem que sempre gostou de voce só pra aliviar, mas quando ficar bem de novo, vai esquecer a pessoa.'

'tantos detalhes. parece que a senhorita sabe-tudo já passou por isso, não é? se envolveu demais com alguém que ela achava digno de pena. eu não preciso da sua compaixão, obrigada.' ele se sentiu ofendido. até demais.

'olha, só quero que voce saiba que eu não sou uma roupa no seu armario, que dependendo da estação voce tira lá do fundo pra usar. eu nao sou um casaco de brechó, rejeitado e barato, que voce comprou quando ele era só mais um casaco demodê, extravagante e feio que voce só usava dentro de casa pra não passar vergonha. e quando a moda voltou, voce pode tirar lá do fundo do armario e exibir pra todo mundo o casaco dizendo que não é velho e sim vintage. eu não sou isso, não me use.'



'então vai, eu já disse.' ele estava satisfeito. havia conseguido o que queria. embora soubesse que a garota choraria, passaria algumas insônias, transformaria-as em noitadas bêbadas, ela ficaria bem em algum tempo. ou pelo menos ele queria acreditar nisso. 'eu nunca te usei. voce sempre ficou no fundo do meu armário.'

sobre alguém que perdeu um melhor amigo.

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