quarta-feira, 29 de outubro de 2008

cachos.

naqueles dias era tudo tranquilidade: a garota não usava mais maquiagens, seu cabelo agora era curto, ela trabalhava. ele nunca tinha usado máscaras, seu cabelo também era curto e ele não tinha idade pra trabalhar.


'sabe, às vezes fico pensando na tristeza de ser sempre feliz...' ela disse, um tanto filosófica.


'e?'


'ah, não sei. acho que se ninguém nunca sentisse dor ia ser estranho. e aí penso que o prazer também é uma dor. voce já riu demais e ficou dolorido no outro dia? fico pensando nisso.' ela concluía algo que nao terminava.


'ah, ja.' ele estava tão monossilábico.


'voce acha que um dia a gente vai ser feliz? sabe, um dia a gente vai se separar...' ela agora ia mais longe.


'acho que vamos. e se um dia acabar, pelo menos eu sei que aproveitei cada simples dia...' ele agora fazia uma oração. e olhava para longe, como se procurasse sua casa que ficava na quadra ao lado.


'sabe, eu estudei platão. só um pouquinho... mas ele falava de prazer e dor, amor e ódio. acho que ele tava certo...' ela agora mudava de assunto sem sair do tema.


'é, vindo de uma bipolar, não achei que discordaria. e vindo de um bipolar, não espere que eu discorde.'


e se fez um longo silêncio. estava escurecendo e ela ainda tinha de caminhar até sua casa, seus passes tinham acabado e lhe sobrariam passos.


'que horas são?' e ela se revirava no chão gelado do prédio para olhá-lo.


'hm... não importa. eu te amo.' ele agora lhe segurava a mão fortemente.


'o quê? voce tá louco!' e ela sentia as mãos ásperas contra a sua. 'o que voce tá fazendo???'


'eu te amo. vamos fugir pra europa, voce tem uma mochila e eu tenho um cartão de crédito. com minha beleza e sua inteligência a gente vai ficar rico: você e eu, só. larga a faculdade, agora.' ele delirava.


'QUE horas são???' ela agora olhava firme nos olhos de adolescente dele.


ele soltou a mão aos poucos, aproximou seu rosto ao dela e esticou a mão, colocando-a em frente ao rosto da garota, como se fosse estalar os dedos.


e estalou. 'é hora de acordar, F.'


e ela acordou com respiração ofegante. estava em sua cama, complicada demais pra se entender, simples demais pra ser diferente. tudo tinha sido apenas mais uma das visitas noturnas de seu passado.


sobre uma garota que tinha cabelos tão enrolados quanto sua vida amorosa.


2 comentários:

  1. Que texto interessante. Foi envolvente do início ao fim. Você escreve muito bem, sabe levar um texto adiante mas, principalmente, sabe quando (e como) acabar. Parabéns!

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  2. Oi.... Nem imagino de onde tu tirou esta foto, porque ela é do meu amor na beira da piscina.
    PS. Adorei tuas poesias e contos

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