terça-feira, 19 de agosto de 2008

...entre 'lápises' e canetas.

eles atravessaram as portas do instituto e sentaram-se lado a lado: ele tomava um café e ela preenchia um formulário. burocracias.

'sabe, eu gosto muito de preencher lacunas, poderia fazer isso a vida toda...' ela comentou enquanto procurava alguns números no ar.

'hm...' ele continuava a contemplar o amargo do seu café com o olhar no horizonte do corredor vazio '...eu não gosto do café do restaurante universitário, ele é amargo demais e isso me faz lembrar da minha vida...'

ela riu como quem distribuísse sorrisos e continuou seu hobby '...'

'é, amargo...' disse ele como se dissesse a alguém que não passava no corredor.

ela parou seu passatempo e o olhou furtivamente. silenciou-se e continuou o que fazia. e de repente...

'sabe, pra mim, os acontecimentos da vida são como um lápis, sabe?' e antes que ele pudesse responder ela continuou a falar '...é, lápises. eles estão lá, mas aí a gente vai apontando, usando, escrevendo nossa história com eles. não é? mas um dia eles acabam, a gente aponta tanto que acabam. mesmo seu lápis preferido vai acabar um dia porque se voce não apontar como vai escrever sua história?! e no fim, só restam pedaços.' ela concluiu tristemente, como quem acabesse de fazer uma grande descoberta.











'pedaços que vão pra lata de lixo' disse o menino amargamente. talvez fosse o café em sua boca.

.silêncio

'então a paixão é como uma caneta.' ele terminou.

'?' ela olhou pela primeira vez mais diretamente pra ele.

' (!) as canetas ficam, mas as cargas vão! mas aí a gente só precisa trocar a carga!' ele olhou pra ela.

'é... faz sentido.' ela fitou a caneta em suas mãos. 'mas ainda prefiro os lapises... me dá segurança, dá pra apagar o erro cometido por lápis, e por caneta?' ela disse num tom que expressava sua fobia de compromissos.

'com a caneta, só passando algo por cima.' ele disse.

'hm, isso me remete a Lacan. odeio Lacan. mas faz sentido, não é ele que fala da alienação e substituição?' ela perguntou.

'é, ele mesmo!' ele respondeu animado, finalmente tinha encontrado a sua analogia.

mais silêncio e barulhos de riscos no formulário quase integralmente preecnchido.

'foi uma boa analogia!' ela disse colocando o ponto final no seu formulário. '...boa mesmo.'

e eles levantaram e saíram. ela ainda pensava nas canetas e tinha medo. ele não pensava em nada. mas ela concluiu que mesmo que fosse um lápis, ela certamente seria orgulhosa - ou seria preguiçosa? - demais pra carregar consigo uma borracha e usá-la.





(a borracha estava lá, mas pelo visto nunca tinha sido usada. )





diálogos vespertinos entre a rainha da falácia e o seu aprendiz.

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